Erin Brockovich mapeia impactos dos data centers de IA

A ativista ambiental Erin Brockovich lançou uma plataforma digital interativa nos Estados Unidos para mapear e combater os impactos da expansão dos data centers de inteligência artificial, reunindo milhares de denúncias de moradores afetados por escassez de água, alta nas contas de luz e poluição sonora e ambiental.

Aerial shot of a data center for cryptocurrency mining, cloud services and AI computing in a large, temperature controlled warehouse in a remote location in Stutsman County, North Dakota.

Os data centers enfrentam crescente escrutínio e resistência, sob preocupações com escassez de água, poluição sonora e do ar, além do esgotamento de recursos energéticos e territoriais.

halbergman/Getty Images

A corrida pela infraestrutura de IA e a reação das comunidades

A construção desenfreada de infraestruturas para suportar a demanda por inteligência artificial transformou regiões inteiras em campos de disputa. Moradores locais entram em confronto direto com desenvolvedores devido aos fortes impactos no abastecimento hídrico, ao encarecimento de tarifas elétricas e a riscos ambientais diretos. A pressão comunitária, somada ao posicionamento de autoridades locais e federais, já resultou no atraso e até no cancelamento de diversos projetos no país.

Nesse cenário de tensão, o novo portal lançado por Erin Brockovich surge para amplificar a voz das populações afetadas. Brockovich ganhou notoriedade mundial ao liderar a batalha jurídica contra a Pacific Gas & Electric pela contaminação da água em Hinkley, na Califórnia — história retratada no filme de Hollywood estrelado por Julia Roberts no ano 2000.

O pilar central do site Brockovich AI Data Center Reporting é um mapa interativo e colaborativo que contabiliza 3.674 locais catalogados entre instalações operacionais, propostas de projetos e estruturas atualmente em construção. Qualquer cidadão pode enviar um relato sobre problemas causados por data centers por meio de um formulário online. Brockovich analisa pessoalmente as denúncias enviadas, removendo duplicadas e desconsiderando registros que não contenham o código postal (ZIP code).

“A Erin está muito interessada em manter o mapa como um canal auto-gerido para que todas as pessoas que enviam suas histórias possam ser vistas e ouvidas”, afirmou Suzanne Boothby, coautora do livro mais recente de Brockovich e editora executiva do seu Substack, The Brockovich Report.

Dados do Pew Research Center indicam a existência de pelo menos 3.000 data centers em operação nos Estados Unidos, com outros 1,500 projetos em andamento. A seção de perguntas frequentes do portal esclarece que o objetivo do mapa não é registrar absolutamente todas as instalações do país, mas concentrar o foco nos locais onde os moradores estão se manifestando ativamente.

Em declaração por e-mail, Boothby destacou que uma das maiores dificuldades enfrentadas por quem lida com ameaças ambientais no próprio quintal é a sensação de invisibilidade perante as autoridades.

Falta de transparência preocupa comunidades locais

De acordo com publicação feita em 27 de maio sob o título If Data Centers Are So Great, Why Are They Being Built in Secret? (“Se os data centers são tão ótimos, por que estão sendo construídos em segredo?”), Brockovich fez uma chamada pública no final de abril solicitando informações sobre projetos nas regiões dos leitores. A resposta foi massiva: no decorrer de um mês, a plataforma registrou 2.716 marcações no mapa a partir de 3.862 denúncias enviadas.

A ativista ambiental Erin Brockovich abordou a contaminação da água em seu livro Superman’s Not Coming e agora direciona sua atuação para o avanço dos data centers.

The Brockovich Report

Entre todos os relatos recebidos, um ponto específico se destacou em relação aos demais.

“A preocupação mais recorrente — superando barulho, consumo de água e aumento de tarifas elétricas — é resumida em uma palavra presente em denúncia após denúncia: transparência”, escreveu Brockovich.

O sigilo adotado no desenvolvimento dessas estruturas deixa os residentes locais sem poder de decisão sobre empreendimentos que causam impacto severo no cotidiano, afetando a saúde pública e os recursos básicos da comunidade. O artigo recebeu mais de 200 comentários de leitores, incluindo manifestações de apoio pela coragem de enfrentar grandes corporações e alertas sobre o consumo exorbitante de recursos energéticos promovido pela indústria de IA.

A expansão acelerada dessas centrais de processamento para suprir as necessidades de computação das Big Techs colocou o setor no centro da oposição popular. Empresas como a SpaceX chegam a discutir planos para transferir instalações de processamento de dados para o espaço como alternativa viável.

Confronto político e moratórias estaduais

Em 1º de junho, a Oracle e a OpenAI iniciaram a construção de um mega campus de data centers voltado para IA orçado em US$ 16 bilhões no município de Saline Township, no Michigan. O projeto foi imediatamente recebido com protestos organizados por moradores da região.

O avanço dos protestos gerou um forte debate político sobre o poder de regulamentação dos estados sobre essas megaobras. Atualmente, cerca de doze estados norte-americanos avaliam a aplicação de moratórias sobre novas construções. No Maine, os parlamentares aprovaram o primeiro veto estadual para instalações que demandem mais de 20 megawatts de eletricidade, medida que acabou vetada posteriormente pela governadora Janet Mills.

Pesquisa recente conduzida pelo instituto Gallup revelou que a maioria dos cidadãos norte-americanos se opõe à expansão desenfreada dos data centers em suas comunidades.

Plataforma unifica resistência contra impactos ambientais

O hub criado por Erin Brockovich reúne matérias jornalísticas e registros em vídeo de projetos específicos, disponibilizando também registros fotográficos das obras. Entre as imagens divulgadas, destaca-se a destruição de uma área agrícola em Bowling Green, no Ohio, para dar lugar a um novo complexo de processamento.

A plataforma detalha os principais pontos de preocupação associados aos data centers e compila a reposta de organizadores locais, destacando municípios e regiões onde moratórias foram aprovadas ou submetidas à votação popular.

Segundo Suzanne Boothby, a centralização desses dados oferece uma alternativa real para cidadãos frustrados com a morosidade de órgãos governamentais de fiscalização, como a Agência de Proteção Ambiental (EPA) e o Departamento de Recursos Naturais.

“Este mapa oferece uma voz para essas pessoas e esperamos que promova uma discussão muito mais ampla, mostrando claramente que não se trata de um problema isolado em uma cidade ou outra, mas sim de um desafio de escala nacional”, concluiu Boothby.

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